
New York, 20 de Abril de 2009
“Onde andas, princesa?” Nuno, voltaste. E não consigo ler mais do que uma frase. E não consigo recuperar o fôlego que cada uma das três palavras me rouba. E não consigo ter vontade de te dizer onde estou.
Antes de ti, Nuno, nunca ninguém me tinha chamado princesa e eu gostava que o tivessem feito. Sempre vi as princesas como seres protegidos pelo mundo, intocáveis com os seus cabelos entrançados e enfeitados, e com os vestidos eternamente cor-de-rosa. Chamaste-me princesa desde o primeiro dia e, desde então, eu senti-me algo que no final de contas nunca cheguei a ser: única.
Devias ter sido mais forte. Devias ter olhado para trás (para mim) cem vezes se fosse preciso. Devias fazer justiça ao nome que tinhas escolhido para mim. As princesas enfrentam dragões e bruxas, Nuno, mas não me lembro de alguma vez ter lido um conto de fadas em que a princesa luta contra o príncipe, o cavalo branco, a subida à torre, tudo. Nunca ouvi falar de uma história em que o príncipe escolhe outra (que não é princesa nem muito menos o seu destino). Mais do que isso: nunca ouvi uma história de embalar em que os dois são infelizes e separados para sempre.
Não sou princesa. Abandonei o meu castelo e deixei lá ficar todas as coroas, vestidos, criados, sonhos. Cortei as tranças para ter a certeza que nunca mais me encontrarias, lavei o perfume a flores do bosque porque nunca quis que viesses atrás de mim. Não acredito em príncipes porque tu estragaste o meu conto de fadas e, agora, vejo-me obrigada a estar longe do (meu) mundo para reescrever a minha história.
Mas hoje tenho saudades tuas. Tantas que nada é capaz de as levar embora. Não tenho ninguém, Nuno, tudo o que tinha perdi e deixei ficar longe. Estive com o alucinado que me chamou estrela do mar (e não princesa) mas sei que vou sempre acordar e mandá-lo embora, para bem longe, mandar-me a mim para bem longe onde ele não possa reencontrar-me e, assim, possa libertar-se e ser feliz. Quero pedir-lhe para voltar a chamar-me estrela mas tenho medo que tudo fique banal, que ele comece a chamar-me princesa e que a magia se perca.
Deve, com certeza, ter voltado à porta do meu prédio, deve ter voltado a pensar nos meus lençóis no escuro das quatro paredes do seu mundo fechado e sem sonhos (ou cheio deles, não sei). Não sei o que ele procurou no meu olhar naquele dia mas tenho a certeza que não consegui dar-lhe.
Agora estou a voar para longe, para as boleias para perto, sofás brancos e vermelhos, música alta, tu encostado a um canto com os olhos pousados em mim. Não posso, não posso apagar a tua memória nem muito menos substitui-la por outra só porque tu não me fizeste para sempre princesa. Deixei-te ficar aí, no nosso paraíso, e agora é como se não estivesses vivo. Amo-te sempre demasiado para agora seres apenas uma recordação sombria, empalhada em todas as paredes de mim. O mar revolto, o calor do nascer do sol, as flores a murchar à tua porta, o vestido vermelho que não me ficava bem mas tu gostavas.
Mas hoje deixo-te entrar de novo Nuno, se quiseres. Recordo-te com saudade e não quero que tenhas outra pessoa. Manda-a embora e depois podemos voltar àquela discoteca, a de sempre, eu fico bem no meio e olho só para ti, ou então escondo-me, se preferires, e só apareço quando já não aguentar a saudade. O sofá branco, o chão sujo, a minha borboleta.
Tenho tanto para te dizer, Nuno, mesmo ao mesmo tempo querendo dizer tão pouco. Prometo que serei correcta e amiga, que me aproximarei sem mostrar as minhas intenções e, assim, pode ser que me deixes entrar. Se houver outra vou dizer-te “Fica com ela e sê feliz, eu vou estar do teu lado”, como quem diz sê feliz comigo e tem olhos só para mim, o teu coração só pode ter um lado para que não caiba lá mais ninguém.
Vem e deixa-me esquecer sem te esquecer a ti. Os pesadelos, o tempo que parece eterno, os olhos verdes e irados de outros tempos, eu a rodopiar na música sem sentido, tu a parecer dizer “Vai ficar tudo bem, Rita”.
Rita
Antes de ti, Nuno, nunca ninguém me tinha chamado princesa e eu gostava que o tivessem feito. Sempre vi as princesas como seres protegidos pelo mundo, intocáveis com os seus cabelos entrançados e enfeitados, e com os vestidos eternamente cor-de-rosa. Chamaste-me princesa desde o primeiro dia e, desde então, eu senti-me algo que no final de contas nunca cheguei a ser: única.
Devias ter sido mais forte. Devias ter olhado para trás (para mim) cem vezes se fosse preciso. Devias fazer justiça ao nome que tinhas escolhido para mim. As princesas enfrentam dragões e bruxas, Nuno, mas não me lembro de alguma vez ter lido um conto de fadas em que a princesa luta contra o príncipe, o cavalo branco, a subida à torre, tudo. Nunca ouvi falar de uma história em que o príncipe escolhe outra (que não é princesa nem muito menos o seu destino). Mais do que isso: nunca ouvi uma história de embalar em que os dois são infelizes e separados para sempre.
Não sou princesa. Abandonei o meu castelo e deixei lá ficar todas as coroas, vestidos, criados, sonhos. Cortei as tranças para ter a certeza que nunca mais me encontrarias, lavei o perfume a flores do bosque porque nunca quis que viesses atrás de mim. Não acredito em príncipes porque tu estragaste o meu conto de fadas e, agora, vejo-me obrigada a estar longe do (meu) mundo para reescrever a minha história.
Mas hoje tenho saudades tuas. Tantas que nada é capaz de as levar embora. Não tenho ninguém, Nuno, tudo o que tinha perdi e deixei ficar longe. Estive com o alucinado que me chamou estrela do mar (e não princesa) mas sei que vou sempre acordar e mandá-lo embora, para bem longe, mandar-me a mim para bem longe onde ele não possa reencontrar-me e, assim, possa libertar-se e ser feliz. Quero pedir-lhe para voltar a chamar-me estrela mas tenho medo que tudo fique banal, que ele comece a chamar-me princesa e que a magia se perca.
Deve, com certeza, ter voltado à porta do meu prédio, deve ter voltado a pensar nos meus lençóis no escuro das quatro paredes do seu mundo fechado e sem sonhos (ou cheio deles, não sei). Não sei o que ele procurou no meu olhar naquele dia mas tenho a certeza que não consegui dar-lhe.
Agora estou a voar para longe, para as boleias para perto, sofás brancos e vermelhos, música alta, tu encostado a um canto com os olhos pousados em mim. Não posso, não posso apagar a tua memória nem muito menos substitui-la por outra só porque tu não me fizeste para sempre princesa. Deixei-te ficar aí, no nosso paraíso, e agora é como se não estivesses vivo. Amo-te sempre demasiado para agora seres apenas uma recordação sombria, empalhada em todas as paredes de mim. O mar revolto, o calor do nascer do sol, as flores a murchar à tua porta, o vestido vermelho que não me ficava bem mas tu gostavas.
Mas hoje deixo-te entrar de novo Nuno, se quiseres. Recordo-te com saudade e não quero que tenhas outra pessoa. Manda-a embora e depois podemos voltar àquela discoteca, a de sempre, eu fico bem no meio e olho só para ti, ou então escondo-me, se preferires, e só apareço quando já não aguentar a saudade. O sofá branco, o chão sujo, a minha borboleta.
Tenho tanto para te dizer, Nuno, mesmo ao mesmo tempo querendo dizer tão pouco. Prometo que serei correcta e amiga, que me aproximarei sem mostrar as minhas intenções e, assim, pode ser que me deixes entrar. Se houver outra vou dizer-te “Fica com ela e sê feliz, eu vou estar do teu lado”, como quem diz sê feliz comigo e tem olhos só para mim, o teu coração só pode ter um lado para que não caiba lá mais ninguém.
Vem e deixa-me esquecer sem te esquecer a ti. Os pesadelos, o tempo que parece eterno, os olhos verdes e irados de outros tempos, eu a rodopiar na música sem sentido, tu a parecer dizer “Vai ficar tudo bem, Rita”.
Rita


