Quarta-feira, Abril 15, 2009

O que sou

"Uma avó é uma mulher que não tem filhos e por isso gosta dos filhos dos outros. As avós não têm nada para fazer, é só estarem ali.
Quando nos levam a passear andam devagar e não pisam as flores nem as lagartas. Nunca dizem "Despacha-te!". Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos.
Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes. Quando nos contam uma história nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história. As avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo.
Não são tão fracas como dizem, apesar de morreram mais vezes do que nós. Toda a gente devia fazer os possíveis por ter uma avó, sobretudo se não tiver televisão".

Texto escrito por uma menina de 8 anos e publicado no jornal do Cartaxo.


(Faço uma pausa no meu monólogo só para dizer que as pessoas que não sabem isto sobre as avós é porque são miseráveis. E que fazer-lhes mal é incrivelmente pior do que pisar as lagartas e as flores. Porque a minha avó é a flor mais bonita de todas... e não merecia este veneno no caminho.
Amo-te muito vó*)

Quinta-feira, Março 12, 2009

Like apples and oranges



New York, 12 de Março de 2009

Faz-me mal estar sentada, faz-me mal estar parada. Portanto, outro dia lá estava eu, de pé e de olhos bem abertos numa livraria pouco movimentada e, espante-se, comecei a chamar emprego a este sítio. Hoje já não consigo dizer se me identifiquei com o pó nas estantes (igual ao das minhas), ou com os adolescentes que vêm procurar os livros obrigatórios do liceu mais baratos mas que não querem ler(como já eu fiz), ou com a matrona gorda e sozinha (como eu serei um dia) ou com os velhos que passam aqui as tardes, sentados nas cadeiras ferrugentas e que dizem que os livros são a porta para os sonhos (bem, esta parte já não tenho tanta certeza).

Já lá vão alguns meses desde que me dei bem numa entrevista pela primeira vez. A verdade é que não foram assim tantas mas, mesmo assim, gosto de me convencer que procurei arduamente um trabalho, não porque precisava do dinheiro mas porque estava cansada de dias sem rotina. O emprego é uma merda, chego agora à conclusão que todas as matronas ricas têm, obrigatoriamente, de ser sovinas, e se estivesse à espera de sobreviver com os miseráveis dólares que ela me paga mais valia aprender a fazer de mulher estátua e ir para o Central Park ganhar umas moeditas a fazer arte. Bem vistas as coisas… estar parada atrás deste balcão vai dar mais ou menos ao mesmo, qualquer dia ponho aqui um chapéu e um bocado de cartão a dizer “ajudem os artistas”.

A minha patroa, Louise, obriga toda a gente a chamar-lhe Madam Lou. É ridículo, eu sei, mas acho que é a maneira de ela convencer os clientes de que percebe alguma coisa de livros, escusado será dizer que percebe tanto do assunto como eu de metalúrgica. Por isso, esta manhã, como a livraria estava cheia (a cidade dorme à tarde e cultiva-se de madrugada) a Madam Lou resolveu deixar isto por minha conta e risco, dizendo que “o movimento estava fraco” e que tinha “mais o que fazer”. Coitada da Madam Lou. Acho que o que a assustou foi quando o Lawrence chegou.

- Bom dia. Sou o Lawrence. É um prazer conhecê-la.

Se há coisa que Madam Lou detesta mais do que livros são desconhecidos educados. E eu também, confesso.

- GHSfifdsaf. (tradução: Bom dia. Na linguagem de Madam Lou que grunhe em vez de falar).

- Estava ali a ponderar se poderia dar-me uma ajuda. Sabe, procuro uma biografia de alguém que não seja importante. Alguém comum, sabe? Que tenha tão pouco para dizer mas que goste tanto de escrever que torne cada página uma iguaria de um sabor incalculável. É daquele género de autores que eu gosto… têm uma vida vazia, são fúteis, às vezes egoístas, nunca fizeram nada que mereça prémios ou notícias na comunicação social, limitam-se a vaguear pelas ruas de uma cidade qualquer, bebem o comum, comem pouco, têm vícios, têm vidas tão desinteressantes que é quase um insulto dar um dólar sequer pelos seus testemunhos. Tem alguma coisa do género?

Controlei-me desalmadamente para não desatar à gargalhada enquanto Madam Lou me perguntava ao ouvido “O que é que este anormal está para aqui a dizer?”.

- Só temos livros!! – disse a Madam Lou.

- Pois. Era mesmo isso que eu queria, senhora! – o Lawrence não parava de sorrir enquanto falava e Madam Lou estava a segundos de lhe arrancar os cabelos.

- Ah. Então pode escolher à vontade, leve dois ou três e fica o assunto arrumado.

- Assim como quem leva laranjas, as põe num saco e as pesa à saída com um “Volte sempre, espero que lhe saiba bem”? – sorria, parecia divertido

Foi a gota de água. Madam Lou saiu porque tinha “mais que fazer”, borrifando-se para os pedidos impossíveis. Lawrence não tirava o sorriso dos lábios.

- Então? A menina pode ajudar-me a encontrar o que procuro?

- Bem… só se quiser ler o meu diário.


Rita

Quinta-feira, Março 05, 2009

Pedregulhos

Se alguém te disser que já está não acredites. É só porque querem que te esqueças que ainda está muito longe de estar.





"Vou deixar a rua me levar, ver a cidade se acender. A lua vai banhar esse lugar... e eu vou lembrar você"

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Elogio




"Se sou tinta, tu és tela

Se sou chuva és aguarela

Se sou sol, és branca areia,

Se sou mar, és maré cheia"


Sou a voz do coração, numa carta aberta ao mundo

Sou o espelho de emoção do teu olhar profundo.

Sou um todo num instante, corpo dado em jeito amante

Sou o tempo que não passa quando a saudade me abraça"

Flor de Lis

P. S. - Pintaste-me *

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

Aprende, Camila

“Tudo o que há para saber do amor é a deslumbrada aceitação. Não se aprende a amar, Camila; não há vontade democrática capaz de espalhar a paixão pelas bolsas de pobreza onde ela não chega, nem fábricas capazes de a produzir em peças para montagem, construção ou exportação. Não há nada de justo neste sentimento: justiça, aliás, não passa de um espectáculo de ordenação do mundo, um circo que inventámos para substituir a irracional lei do coração.

Não procures explicação para a minha vida, nem a tomes com pena ou escândalo; quando eu ficar tão velha que pareça louca, lê nestes cadernos que eu fui feliz. Não te preocupes como ou quanto, nem caias na tentação de distinguir amor e paixão: a pouco e pouco, fui vendo que essas divisões são armadilhas que se montam para que o pano caia sobre os nossos olhos e a imortalidade desapareça do nosso horizonte.

O amor Camila, consiste na divina graça de parar o tempo. E nada mais se pode dizer sobre ele.”


Nas tuas mãos, Inês Pedrosa

Segunda-feira, Outubro 13, 2008

Somos



Pedaços. Como os morangos nos iogurtes por bater, como os montes de areia molhada depois de desfeito o castelo, como o gelo a derreter no fundo dos copos, como a cinza nas lareiras no Inverno, como o caramelo doce agarrado ao céu da boca.


E, no entanto, teimamos sempre em juntar-nos.

Segunda-feira, Junho 16, 2008

Almofadas - 2 Pessoas - 0





New York, 16 de Junho de 2008


Já estava na altura de dar alguma cor a este buraco. Quando uma pessoa decide enterrar-se, o mínimo que pode fazer é procurar alguma decência lá no fundo. Ora bem, eu desisti de procurar e resolvi criá-la. Em vão, como não podia deixar de ser.

Então andei (note-se na palavra andei em substituição do meu preguiçoso "fui de autocarro") até a um armazém bolorento no meio de uma rua que não conhecia, decididíssima a comprar meia dúzia de objectos em segunda mão para pousar nos cantos do meu buraco. Sim, o meu buraco tem cantos.

Preferi comprar em segunda mão porque farta de coisas novas e ainda com etiqueta já estou eu. Não quero cheiro a novo, quero cheiro a pessoas, quero ouvir memórias, quero esquecer-me de mim e pensar que, se pudessem, essas pessoas me contavam a vida toda numa madrugada que dura até ao nascer do sol, ao contrário das outras que acabam às quatro da manhã, bêbeda, encafuada num sofá ou, pior, aninhada no chão da casa de banho como se fosse o colo do "onde andas princesa".

Quando cheguei ao armazém, como não podia deixar de ser, veio um horroroso atender-me. Mal me perguntou se precisava de alguma coisa deu-me vontade de me escancarar a rir na cara de menino dele, e dizer que ele nem tinha ideia. Mas não. Já me assusto a mim própria quando, todas as manhãs, ainda procuro a máquina de café nos balcões da cozinha.

- Não, obrigada. Estou só a ver.

Ele olhou para mim espantado. Dado que ainda não tinha entrado na loja era impossível estar "só a ver" o que quer que fosse. Adiante, já me habituei a que me julguem louca. Entrei com passinhos lentos, a medo. Não cheirava a mofo, cheirava a vivo. Não precisei de pensar muito para perceber porque é que as pessoas se desfazem de coisas tão pessoais...às vezes, se pudéssemos, não nos desfazeríamos de mil e uma coisas que nos tiram as crostas das feridas? Eu sim.

Sofás velhos e muito novos. Alguma tia deve ter achado que a mancha de vinho era uma mancha na fama da família. Fogões antigos, vasos, flores de plástico, planelas ferrugentas, talheres de escuteiros, candeeiros de um século tão distante que ninguém da minha idade se lembra que existiu, livros, muitos livros, poucos cd's mas muitos vinis.

Colei os olhos nas almofadas. Como é possível que, sendo o meu sofá tão dolorosamente duro, ainda não me tenha lembrado de comprar meia dúzia de almofadas, daquelas grandes e cheias de cor, que me ajudem a esquecer que tenho aquele sofá? Peguei em duas. Uma cor-de-rosa e uma cor-de-laranja. Se calhar as cores não combinam, mas eu gosto. Se calhar eu também tenho direito a reconstruir as minhas recordações, quanto mais não seja a partir das recordações dos outros. Se calhar eu preciso de um sítio mais fofo e aconchegante, para mandar para lá de baixo o "onde andas princesa" e, mesmo assim, encostar-me a ele como dantes.

- Já escolheu, miss? - perguntou o totó.

- Sim. Vou levar estas duas.

- Quer uma opinião do decorador?...

Não, já sei que não combinam com nada mas combinam comigo e com o meu sofá. Já sei que são feias mas tenho a certeza que já viram muitas coisas bonitas então vou levá-las para casa. É como dar um colo a um cão abandonado, percebe?

- Não obrigada.

- É tudo?

Tudo. Há muito tempo que não sinto essa palavra. Em Nada.

- Tem pessoas? - perguntei.

- Desculpe?

- Se tem pessoas. Que possa levar com as almofadas.

- Sim, podemos mandar entregar - disse ele, a medo.

Ri-me. Ele fez-me rir. Não me fez rebolar para debaixo da cama ou do tapete, ou do passeio ou do esgoto. Fez-me rir. Entrei na brincadeira.

- E deixam ficar a pessoa?

- Desculpe, miss, mas receio não estar a perceber o que pretende.

- Deixe lá. Tem máquinas de café?

- Não, receio bem que não.

- Pena...

- Miss, precisa de alguma coisa? - o rapazinho começava a perder a paciência.

- Precisava de alguém que me fosse dizer "mais para a esquerda" ou "mais para a direita" quando fosse posicionar as almofadas no sofá.

- Quer que chame o decorador??

Há dias em que não devia armar-me em boa pessoa e deixar o meu buraco eternamente buraco.

Rita