
New York, 16 de Junho de 2008
Já estava na altura de dar alguma cor a este buraco. Quando uma pessoa decide enterrar-se, o mínimo que pode fazer é procurar alguma decência lá no fundo. Ora bem, eu desisti de procurar e resolvi criá-la. Em vão, como não podia deixar de ser.
Então andei (note-se na palavra andei em substituição do meu preguiçoso "fui de autocarro") até a um armazém bolorento no meio de uma rua que não conhecia, decididíssima a comprar meia dúzia de objectos em segunda mão para pousar nos cantos do meu buraco. Sim, o meu buraco tem cantos.
Preferi comprar em segunda mão porque farta de coisas novas e ainda com etiqueta já estou eu. Não quero cheiro a novo, quero cheiro a pessoas, quero ouvir memórias, quero esquecer-me de mim e pensar que, se pudessem, essas pessoas me contavam a vida toda numa madrugada que dura até ao nascer do sol, ao contrário das outras que acabam às quatro da manhã, bêbeda, encafuada num sofá ou, pior, aninhada no chão da casa de banho como se fosse o colo do "onde andas princesa".
Quando cheguei ao armazém, como não podia deixar de ser, veio um horroroso atender-me. Mal me perguntou se precisava de alguma coisa deu-me vontade de me escancarar a rir na cara de menino dele, e dizer que ele nem tinha ideia. Mas não. Já me assusto a mim própria quando, todas as manhãs, ainda procuro a máquina de café nos balcões da cozinha.
- Não, obrigada. Estou só a ver.
Ele olhou para mim espantado. Dado que ainda não tinha entrado na loja era impossível estar "só a ver" o que quer que fosse. Adiante, já me habituei a que me julguem louca. Entrei com passinhos lentos, a medo. Não cheirava a mofo, cheirava a vivo. Não precisei de pensar muito para perceber porque é que as pessoas se desfazem de coisas tão pessoais...às vezes, se pudéssemos, não nos desfazeríamos de mil e uma coisas que nos tiram as crostas das feridas? Eu sim.
Sofás velhos e muito novos. Alguma tia deve ter achado que a mancha de vinho era uma mancha na fama da família. Fogões antigos, vasos, flores de plástico, planelas ferrugentas, talheres de escuteiros, candeeiros de um século tão distante que ninguém da minha idade se lembra que existiu, livros, muitos livros, poucos cd's mas muitos vinis.
Colei os olhos nas almofadas. Como é possível que, sendo o meu sofá tão dolorosamente duro, ainda não me tenha lembrado de comprar meia dúzia de almofadas, daquelas grandes e cheias de cor, que me ajudem a esquecer que tenho aquele sofá? Peguei em duas. Uma cor-de-rosa e uma cor-de-laranja. Se calhar as cores não combinam, mas eu gosto. Se calhar eu também tenho direito a reconstruir as minhas recordações, quanto mais não seja a partir das recordações dos outros. Se calhar eu preciso de um sítio mais fofo e aconchegante, para mandar para lá de baixo o "onde andas princesa" e, mesmo assim, encostar-me a ele como dantes.
- Já escolheu, miss? - perguntou o totó.
- Sim. Vou levar estas duas.
- Quer uma opinião do decorador?...
Não, já sei que não combinam com nada mas combinam comigo e com o meu sofá. Já sei que são feias mas tenho a certeza que já viram muitas coisas bonitas então vou levá-las para casa. É como dar um colo a um cão abandonado, percebe?
- Não obrigada.
- É tudo?
Tudo. Há muito tempo que não sinto essa palavra. Em Nada.
- Tem pessoas? - perguntei.
- Desculpe?
- Se tem pessoas. Que possa levar com as almofadas.
- Sim, podemos mandar entregar - disse ele, a medo.
Ri-me. Ele fez-me rir. Não me fez rebolar para debaixo da cama ou do tapete, ou do passeio ou do esgoto. Fez-me rir. Entrei na brincadeira.
- E deixam ficar a pessoa?
- Desculpe, miss, mas receio não estar a perceber o que pretende.
- Deixe lá. Tem máquinas de café?
- Não, receio bem que não.
- Pena...
- Miss, precisa de alguma coisa? - o rapazinho começava a perder a paciência.
- Precisava de alguém que me fosse dizer "mais para a esquerda" ou "mais para a direita" quando fosse posicionar as almofadas no sofá.
- Quer que chame o decorador??
Há dias em que não devia armar-me em boa pessoa e deixar o meu buraco eternamente buraco.
Rita