Segunda-feira, Dezembro 07, 2009


New York, 20 de Abril de 2009

“Onde andas, princesa?” Nuno, voltaste. E não consigo ler mais do que uma frase. E não consigo recuperar o fôlego que cada uma das três palavras me rouba. E não consigo ter vontade de te dizer onde estou.

Antes de ti, Nuno, nunca ninguém me tinha chamado princesa e eu gostava que o tivessem feito. Sempre vi as princesas como seres protegidos pelo mundo, intocáveis com os seus cabelos entrançados e enfeitados, e com os vestidos eternamente cor-de-rosa. Chamaste-me princesa desde o primeiro dia e, desde então, eu senti-me algo que no final de contas nunca cheguei a ser: única.

Devias ter sido mais forte. Devias ter olhado para trás (para mim) cem vezes se fosse preciso. Devias fazer justiça ao nome que tinhas escolhido para mim. As princesas enfrentam dragões e bruxas, Nuno, mas não me lembro de alguma vez ter lido um conto de fadas em que a princesa luta contra o príncipe, o cavalo branco, a subida à torre, tudo. Nunca ouvi falar de uma história em que o príncipe escolhe outra (que não é princesa nem muito menos o seu destino). Mais do que isso: nunca ouvi uma história de embalar em que os dois são infelizes e separados para sempre.

Não sou princesa. Abandonei o meu castelo e deixei lá ficar todas as coroas, vestidos, criados, sonhos. Cortei as tranças para ter a certeza que nunca mais me encontrarias, lavei o perfume a flores do bosque porque nunca quis que viesses atrás de mim. Não acredito em príncipes porque tu estragaste o meu conto de fadas e, agora, vejo-me obrigada a estar longe do (meu) mundo para reescrever a minha história.

Mas hoje tenho saudades tuas. Tantas que nada é capaz de as levar embora. Não tenho ninguém, Nuno, tudo o que tinha perdi e deixei ficar longe. Estive com o alucinado que me chamou estrela do mar (e não princesa) mas sei que vou sempre acordar e mandá-lo embora, para bem longe, mandar-me a mim para bem longe onde ele não possa reencontrar-me e, assim, possa libertar-se e ser feliz. Quero pedir-lhe para voltar a chamar-me estrela mas tenho medo que tudo fique banal, que ele comece a chamar-me princesa e que a magia se perca.

Deve, com certeza, ter voltado à porta do meu prédio, deve ter voltado a pensar nos meus lençóis no escuro das quatro paredes do seu mundo fechado e sem sonhos (ou cheio deles, não sei). Não sei o que ele procurou no meu olhar naquele dia mas tenho a certeza que não consegui dar-lhe.

Agora estou a voar para longe, para as boleias para perto, sofás brancos e vermelhos, música alta, tu encostado a um canto com os olhos pousados em mim. Não posso, não posso apagar a tua memória nem muito menos substitui-la por outra só porque tu não me fizeste para sempre princesa. Deixei-te ficar aí, no nosso paraíso, e agora é como se não estivesses vivo. Amo-te sempre demasiado para agora seres apenas uma recordação sombria, empalhada em todas as paredes de mim. O mar revolto, o calor do nascer do sol, as flores a murchar à tua porta, o vestido vermelho que não me ficava bem mas tu gostavas.

Mas hoje deixo-te entrar de novo Nuno, se quiseres. Recordo-te com saudade e não quero que tenhas outra pessoa. Manda-a embora e depois podemos voltar àquela discoteca, a de sempre, eu fico bem no meio e olho só para ti, ou então escondo-me, se preferires, e só apareço quando já não aguentar a saudade. O sofá branco, o chão sujo, a minha borboleta.

Tenho tanto para te dizer, Nuno, mesmo ao mesmo tempo querendo dizer tão pouco. Prometo que serei correcta e amiga, que me aproximarei sem mostrar as minhas intenções e, assim, pode ser que me deixes entrar. Se houver outra vou dizer-te “Fica com ela e sê feliz, eu vou estar do teu lado”, como quem diz sê feliz comigo e tem olhos só para mim, o teu coração só pode ter um lado para que não caiba lá mais ninguém.

Vem e deixa-me esquecer sem te esquecer a ti. Os pesadelos, o tempo que parece eterno, os olhos verdes e irados de outros tempos, eu a rodopiar na música sem sentido, tu a parecer dizer “Vai ficar tudo bem, Rita”.

Rita

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Strong


- I finally figured out that the only way to have Big in my life was to block out certain feelings. And now every feeling that I ever had is bubbling up all over the place with nowhere to go except my eyeballs.

- So that are you gonna do about it?

- Nothing. There’s nothing to do, Big is who he is, he’s never gonna change. He’s limited and I accept that. So he’ll go back to Napa and I’ll go back to Not Crying. The end.


Sex and the City

Quarta-feira, Abril 15, 2009

O que sou

"Uma avó é uma mulher que não tem filhos e por isso gosta dos filhos dos outros. As avós não têm nada para fazer, é só estarem ali.
Quando nos levam a passear andam devagar e não pisam as flores nem as lagartas. Nunca dizem "Despacha-te!". Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos.
Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes. Quando nos contam uma história nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história. As avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo.
Não são tão fracas como dizem, apesar de morreram mais vezes do que nós. Toda a gente devia fazer os possíveis por ter uma avó, sobretudo se não tiver televisão".

Texto escrito por uma menina de 8 anos e publicado no jornal do Cartaxo.


(Faço uma pausa no meu monólogo só para dizer que as pessoas que não sabem isto sobre as avós é porque são miseráveis. E que fazer-lhes mal é incrivelmente pior do que pisar as lagartas e as flores. Porque a minha avó é a flor mais bonita de todas... e não merecia este veneno no caminho.
Amo-te muito vó*)

Quinta-feira, Março 12, 2009

Like apples and oranges



New York, 12 de Março de 2009

Faz-me mal estar sentada, faz-me mal estar parada. Portanto, outro dia lá estava eu, de pé e de olhos bem abertos numa livraria pouco movimentada e, espante-se, comecei a chamar emprego a este sítio. Hoje já não consigo dizer se me identifiquei com o pó nas estantes (igual ao das minhas), ou com os adolescentes que vêm procurar os livros obrigatórios do liceu mais baratos mas que não querem ler(como já eu fiz), ou com a matrona gorda e sozinha (como eu serei um dia) ou com os velhos que passam aqui as tardes, sentados nas cadeiras ferrugentas e que dizem que os livros são a porta para os sonhos (bem, esta parte já não tenho tanta certeza).

Já lá vão alguns meses desde que me dei bem numa entrevista pela primeira vez. A verdade é que não foram assim tantas mas, mesmo assim, gosto de me convencer que procurei arduamente um trabalho, não porque precisava do dinheiro mas porque estava cansada de dias sem rotina. O emprego é uma merda, chego agora à conclusão que todas as matronas ricas têm, obrigatoriamente, de ser sovinas, e se estivesse à espera de sobreviver com os miseráveis dólares que ela me paga mais valia aprender a fazer de mulher estátua e ir para o Central Park ganhar umas moeditas a fazer arte. Bem vistas as coisas… estar parada atrás deste balcão vai dar mais ou menos ao mesmo, qualquer dia ponho aqui um chapéu e um bocado de cartão a dizer “ajudem os artistas”.

A minha patroa, Louise, obriga toda a gente a chamar-lhe Madam Lou. É ridículo, eu sei, mas acho que é a maneira de ela convencer os clientes de que percebe alguma coisa de livros, escusado será dizer que percebe tanto do assunto como eu de metalúrgica. Por isso, esta manhã, como a livraria estava cheia (a cidade dorme à tarde e cultiva-se de madrugada) a Madam Lou resolveu deixar isto por minha conta e risco, dizendo que “o movimento estava fraco” e que tinha “mais o que fazer”. Coitada da Madam Lou. Acho que o que a assustou foi quando o Lawrence chegou.

- Bom dia. Sou o Lawrence. É um prazer conhecê-la.

Se há coisa que Madam Lou detesta mais do que livros são desconhecidos educados. E eu também, confesso.

- GHSfifdsaf. (tradução: Bom dia. Na linguagem de Madam Lou que grunhe em vez de falar).

- Estava ali a ponderar se poderia dar-me uma ajuda. Sabe, procuro uma biografia de alguém que não seja importante. Alguém comum, sabe? Que tenha tão pouco para dizer mas que goste tanto de escrever que torne cada página uma iguaria de um sabor incalculável. É daquele género de autores que eu gosto… têm uma vida vazia, são fúteis, às vezes egoístas, nunca fizeram nada que mereça prémios ou notícias na comunicação social, limitam-se a vaguear pelas ruas de uma cidade qualquer, bebem o comum, comem pouco, têm vícios, têm vidas tão desinteressantes que é quase um insulto dar um dólar sequer pelos seus testemunhos. Tem alguma coisa do género?

Controlei-me desalmadamente para não desatar à gargalhada enquanto Madam Lou me perguntava ao ouvido “O que é que este anormal está para aqui a dizer?”.

- Só temos livros!! – disse a Madam Lou.

- Pois. Era mesmo isso que eu queria, senhora! – o Lawrence não parava de sorrir enquanto falava e Madam Lou estava a segundos de lhe arrancar os cabelos.

- Ah. Então pode escolher à vontade, leve dois ou três e fica o assunto arrumado.

- Assim como quem leva laranjas, as põe num saco e as pesa à saída com um “Volte sempre, espero que lhe saiba bem”? – sorria, parecia divertido

Foi a gota de água. Madam Lou saiu porque tinha “mais que fazer”, borrifando-se para os pedidos impossíveis. Lawrence não tirava o sorriso dos lábios.

- Então? A menina pode ajudar-me a encontrar o que procuro?

- Bem… só se quiser ler o meu diário.


Rita

Quinta-feira, Março 05, 2009

Pedregulhos

Se alguém te disser que já está não acredites. É só porque querem que te esqueças que ainda está muito longe de estar.





"Vou deixar a rua me levar, ver a cidade se acender. A lua vai banhar esse lugar... e eu vou lembrar você"

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Elogio




"Se sou tinta, tu és tela

Se sou chuva és aguarela

Se sou sol, és branca areia,

Se sou mar, és maré cheia"


Sou a voz do coração, numa carta aberta ao mundo

Sou o espelho de emoção do teu olhar profundo.

Sou um todo num instante, corpo dado em jeito amante

Sou o tempo que não passa quando a saudade me abraça"

Flor de Lis

P. S. - Pintaste-me *

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

Aprende, Camila

“Tudo o que há para saber do amor é a deslumbrada aceitação. Não se aprende a amar, Camila; não há vontade democrática capaz de espalhar a paixão pelas bolsas de pobreza onde ela não chega, nem fábricas capazes de a produzir em peças para montagem, construção ou exportação. Não há nada de justo neste sentimento: justiça, aliás, não passa de um espectáculo de ordenação do mundo, um circo que inventámos para substituir a irracional lei do coração.

Não procures explicação para a minha vida, nem a tomes com pena ou escândalo; quando eu ficar tão velha que pareça louca, lê nestes cadernos que eu fui feliz. Não te preocupes como ou quanto, nem caias na tentação de distinguir amor e paixão: a pouco e pouco, fui vendo que essas divisões são armadilhas que se montam para que o pano caia sobre os nossos olhos e a imortalidade desapareça do nosso horizonte.

O amor Camila, consiste na divina graça de parar o tempo. E nada mais se pode dizer sobre ele.”


Nas tuas mãos, Inês Pedrosa